Há uns dias, estive na EBAA, Encontro Brasileiro de Autos Antigos, e vi carros muito incríveis de várias marcas, estilos e idades.
Entre eles, me chamou a atenção um Cadillac 1978, anunciado por R$ 550 mil.
Perguntei ao vendedor como ele precificava um item tão único. A resposta foi simples e, ao mesmo tempo, bastante sofisticada:
“Depende de quanto vale o sonho do outro.”
Fiquei com isso na cabeça.
À primeira vista, parece uma resposta subjetiva demais. Afinal, como calcular um sonho? Como atribuir valor a algo que envolve memória, desejo, nostalgia, raridade e pertencimento?
Mas talvez esse seja justamente o ponto.
O carro, em si, é um bem tangível. Tem marca, ano, motor, estado de conservação, documentação, histórico, originalidade e custo de manutenção. Todos esses elementos ajudam a formar uma base objetiva de análise.
Mas o preço de um carro antigo não nasce apenas da soma desses fatores.
Ele também depende do que aquele bem representa para determinado público. Para alguns, é apenas um carro antigo. Para outros, é um símbolo de época, status, coleção, infância, admiração ou realização pessoal.
É nesse ponto que o tangível encontra o intangível.
Ainda assim, isso não significa que o valor seja arbitrário.
Mesmo o “sonho” precisa encontrar mercado. Precisa existir alguém disposto a pagar por ele, e precisa existir uma oferta limitada o suficiente para sustentar esse valor. Em outras palavras, o preço se forma quando desejo e escassez se encontram.
Um Cadillac 1978 pode ter valor porque é raro. Mas também porque existe um grupo específico de pessoas que reconhece essa raridade, deseja esse objeto e tem capacidade econômica para adquiri-lo.
Sem demanda, a raridade sozinha não sustenta preço. Sem escassez, o desejo perde força. Sem referência, a precificação vira opinião.
Essa lógica também aparece em muitos processos de valuation.
Marcas, tecnologias, patentes, carteiras de clientes, pontos comerciais e outros ativos intangíveis muitas vezes carregam dimensões difíceis de tocar, mas nem por isso impossíveis de avaliar.
Uma marca pode representar confiança, reputação, recorrência, preferência e diferenciação. Uma tecnologia pode representar eficiência, barreira de entrada ou vantagem competitiva. Uma base de clientes pode representar relacionamento, previsibilidade e potencial de receita.
Nada disso é físico. Mas tudo isso pode gerar impacto econômico.
O desafio do valuation está justamente em traduzir esses elementos em critérios técnicos. Não para eliminar a subjetividade, mas para organizá-la com método.
No caso do carro antigo, seria possível olhar para transações comparáveis, estado de conservação, originalidade, raridade do modelo, histórico, liquidez do mercado e perfil dos compradores. O “sonho” continuaria existindo, mas passaria a ser analisado dentro de uma lógica econômica.
O mesmo acontece com ativos intangíveis.
O valor não está apenas no que o ativo é, mas no que ele é capaz de gerar. Receita, margem, preferência, retenção, eficiência, diferenciação ou poder de negociação.
Talvez a pergunta não seja exatamente “quanto vale um sonho?”.
Talvez seja:
quais evidências mostram que esse sonho tem mercado?
Porque, no fim, valor não é apenas aquilo que alguém deseja.
É aquilo pelo qual existe demanda real, oferta limitada e disposição concreta de pagamento.
Um abraço,
Fábio Domingues.